Os elementos da vida

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Há muito tempo o homem se depara com questões fundamentais mal resolvidas. Talvez sob a ótica religiosa tais questões possuam respostas satisfatórias. Mas sob a égide da ciência, ainda há muito o que se pensar. Por exemplo, como o Universo foi criado, como surgiu a vida, porque estamos aqui e como adquirimos inteligência, entre outras, são dúvidas que podem não criar muitos insones, mas certamente colocam muitas cabeças ímpares em ação.
Mesmo pensando nisso por anos incessantemente, o homem criou diversas teorias das quais poucas ajudam a responder essas eternas dúvidas. Dessas poucas, pode-se dizer que uma minoria está definitiva fora de seu contexto original e da época em que foi criada. Exemplo é a Teoria da Relatividade Geral criada por Albert Einstein, que até hoje não foi superada por nenhuma outra. Como contraponto, existe o exemplo das pesquisas realizadas pelos físicos de partículas. Atualmente eles consideram os fótons e os glúons os menores elementos sem massa que compõem o Universo. São formados por energia pura. Entre os elementos que possuem massa, o neutrino é considerado o menor deles e é 100 milhões de vezes menor que um próton. Para se ter ideia de grandeza, se um próton fosse uma bola de gude, o átomo seria o estádio de futebol. Imaginem o tamanho do neutrino!

A perspectiva humana
Diz a história que a primeira ideia de classificação dos elementos fundamentais da natureza foi realizada por um pensador grego chamado Empédocles. Ele os classificou em fogo, ar, terra e água. Posteriormente os chineses criaram a sua classificação da seguinte forma: terra, madeira, metal, fogo e água. Já os indianos criaram uma outra, composta por espaço, ar, fogo, água e terra. Talvez a mais famosa classificação da antiguidade em relação aos elementos fundamentais tenha sido a elaborada por Aristóteles, filósofo grego que viveu entre os anos de 384 a.C. e 322 a.C.. Em sua classificação constavam os elementos ar, água, fogo, terra e éter, sendo esse último o elemento que forma o espaço celeste. De qualquer maneira, as diversas classificações, embora com diferenças, sempre mantinham o mesmo nível de granularidade, variando entre quatro ou cinco elementos.

Retomando ahistória
Foram necessários muitos séculos para que essa situação se modificasse concreta e cientificamente. John Dalton, físico e químico inglês, iniciou o processo por volta de 1803 retomando a idéia do grego Demócrito sobre o átomo. Átomo, do grego “atomon”, significa aquilo que não pode ser dividido. Pensou-se por algum tempo que o átomo de fato era uma bola permeável com pequenas quantidades de carga elétrica vibrando internamente. Mas não demorou muito para essa teoria ruir. Em 1897, Joseph John Thomson, físico inglês, provou que os átomos não eram indivisíveis: na verdade eram compostos de elétrons. Em seguida foi a vez de Ernest Rutherford, físico neozelandês, demonstrar que o átomo além do elétron também possuía prótons. E assim, o átomo foi sendo estudado e literalmente dissecado pelos maiores cientistas do mundo como Niels Bohr, Louis de Broglie, Werner Heisenberg, Erwin Schrödinger, entre outros.
No início do século XX, o átomo era conhecido por ser formado por três elementos básicos indivisíveis: próton, nêutron e elétron, sendo que os prótons e nêutrons encontravam-se no interior do núcleo do átomo e os elétrons encontravam-se em movimento orbital em torno do núcleo, como o movimento da Terra em torno do Sol.
Porém, a história não termina aqui. Nos anos 60, com a exaustiva continuidade das pesquisas em torno do átomo, descobriram-se indícios de que os prótons e nêutrons não eram partículas fundamentais. Experimentos com aceleradores de partículas confirmaram a presença de um elemento compondo os prótons e os nêutrons, chamado de quark – nome emprestado do romance de James Joyce, “O despertar de Finnegan”. Esses mesmos aceleradores tempos depois também foram os responsáveis pela descoberta do Bóson de Higgs, popularmente denominado Partícula de Deus.

O futuro infinito
Pode ser que a tecnologia atual nos leve a um ponto de inflexão sobre os menores elementos do Universo, mas se isso acontecer, certamente será somente uma questão de tempo até que consigamos construir novos mecanismos que possam vislumbrar novos elementos. Enquanto a humanidade mantiver a sua curiosidade latente, a ciência estará longe de responder o quão pequeno é o Universo, o qual, um dia no imaginário popular, teria sido singelamente composto pelo fogo, pela terra, pelo ar e pela água.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

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Publicado na edição 10343, de 6 e 7 de dezembro de 2018.